Cantada
(em dois atos)
Primeiro ato: o dele
Chego de roupa branca, trago numa sacola uns desenhos, uma garrafa de vinho, um pedaço de queijo e alguns versos. Entro, passo pela porta e, de propósito, deixo cair meus desenhos. Que são no fim apenas um. As outras folhas não têm importância, são meros rabiscos ou estão em branco. Toda essa toda papelada, no chão, só tem um motivo: chamar a atenção dela e esperar pela sua compaixão. Oh! Ela caiu. Ah! Já que a tenho por perto, não me escapa mais. Porque aqui é meu território. Tudo que eu queria, era esse momento. Agora tento manter você aqui abaixada para que eu possa proferir meu lamento. A grande cartada! Aposto meu rei e minha rainha. É agora ou nunca. Enquanto você me ajuda catar os papéis. Pego um, escolhido a dedo, mas deixo você pensar que foi obra do acaso. Quero causar boa impressão. Sem que peça, começo a discorrer sobre a natureza da gravura. O primeiro e único desenho que há ali, até porque, não tenho habilidades manuais que justifique tal gravura. Direi que os meus desenhos, uma bicicleta, representam o quanto gosto da natureza, sem é claro, abrir mão do conforto. Mas não desprezo as coisas modernas. Minha bicicleta faz de mim uma espécie de passageiro do tempo, um vetor sem graça que apenas aprecia a paisagem, e não faço parte desse quadro por não ter nenhuma beleza. Antes que ela possa responder, pergunto se quer visualizar essas imagens, as mesmas, que a pouco contemplei, digo que representa meu caminho de volta pra casa. Independentemente do seu sim ou do seu não, tanto faz, sou incansável. O seu desprezo só me motiva. Caso ela diga que não pode ou não quer me seguir. Informo-a, numa atitude desesperada e é claro, com uma calma dissimulada que esconde um último golpe. Digo que trago uns versos, um vinho, duas taças e os talheres pra degustar um aperitivo. Trago ainda um manto de folhas que deixei no meio do caminho; se por acaso, quiser parar debaixo da sombra de uma árvore pra contemplar a paisagem. Agora casualmente, desculpo-me e afirmo que sou um tolo e que pode ficar pra outro dia, até porque isso são bobagens. Afinal, sou galanteador. Paciente como todos o são, sei que a impressionei. Caso não seja agora, de hoje, amanhã em diante me olhará como alguém diferente. Assim, despeço-me, e acredito que mudará o seu senso comum, pelo menos, acho, em relação mim. Espero fazer parte do seu mundo especial como você é será sempre para mim minha musa .
Segundo ato: o dela
Vou caminhando tranquilamente pelo caminho e vejo um rapaz bonito e interessante. Ele caminha na direção contraria, parece que vem ao meu encontro. Meu coração palpita, nossos olhares se entrecruzam, chego a pensar que é o tipo de homem que procuro, um cara romântico, sensível, inteligente e seguro de si. Diria que este é um momento mágico em minha vida é agora ou nunca. Mas espere? Algo de estranho acontece. De repente, ele deixa cair um monte de papéis e fica me olhando com uma cara de bobo. Não sei se me achou bonita ou se esperasse que fosse ajudá-lo a catar todos aquelas tralhas. Nesse instante perco meu interesse e o olho com certo desprezo. Que sujeitinho mais desastrado. Que cena patética! Odeio homens inseguros e desorganizados. Como pode num momento tão crucial como este não ter se organizado um pouco mais. Esse definitivamente não pode ser o homem da minha vida. Esse zinho ai! Como dizia minha irmã: “sujeitinho despreparado” depois de me decepcionar, olho com cara de nojo e sigo meu caminho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário